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segunda-feira, 15 de junho de 2009

DISCURSO DE SANTO AMARO, BAHIA, 14 DE JUNHO DE 2009

Pronunciamento do ministro da Cultura, Juca Ferreira, no Núcleo de Incentivo à Cultura de Santo Amaro
SANTO AMARO, BAHIA, 14 DE JUNHO DE 2009

No dia 14 de junho de 1822, esta Câmara de Santo Amaro enviou a primeira manifestação formal, ao então Império Português, do desejo de independência do Brasil. Os vereadores que ocuparam antes estas cadeiras manifestaram o desejo profundo de ampla independência, com autonomia administrativa, autodefesa e provimento dos cargos administrativos.

Quanto ao regime político, a opção foi clara pelo regime liberal e constitucional, com uma menção importante ao ideal do federalismo na forma da autonomia administrativa das províncias.

No plano econômico, reafirmou-se a abertura do comércio internacional, conforme o ato de abertura dos portos de 1808 e a não exclusividade de capitais e capitalistas portugueses no Brasil, daí porque há uma menção específica à liberdade religiosa naquela carta, evidentemente para permitir o estabelecimento no Brasil dos ingleses, protestantes e anglicanos.

No plano da cultura e da educação, foi proposta a criação de uma universidade no Brasil. Este era o projeto defendido pelas vilas de São Paulo e hegemônico no Centro-Sul, sob a liderança dos Andradas e apoiada no príncipe D. Pedro, futuro imperador.

Este modelo de Estado caracterizado pela manutenção da monarquia, do regime constitucional, da autonomia regional e do liberalismo econômico garantiu o apoio das elites baianas ao projeto da unificação do Brasil em um império sediado no Rio de Janeiro. O grande emissário desta carta de José Bonifácio e Pedro de Bragança nas Cortes de Lisboa foi Miguel Calmon du Pin e Almeida, que voltando de Coimbra, passou pelo Rio.

Mas é preciso chamar a atenção também para um aspecto curioso e emocionante de como essa grandeza de Santo Amaro se expressou - sem dúvida um dos momentos de que baianos e brasileiros mais se orgulham.

Essa grandeza se expressou de duas maneiras. As duas, igualmente corajosas, ousadas, desafiadoras, diante de um poder que era maior, o poder estabelecido.

A primeira dessas vias foi o desafio institucional à ordem instituída, com seus desdobramentos: o enfrentamento corporal, de vida e de morte. A outra via foi o enfrentamento por meio da piada, das palavras, da rima, da criatividade, do sarcasmo arrasador.

Assim, na primeira, temos o fato de que foi aqui em Santo Amaro - e em Cachoeira - que se iniciou o movimento que desembocaria no 2 de Julho. Foi aqui que a Câmara santo-amarense, neste mesmo 14 de julho, bancou a autoridade do príncipe dom Pedro de Alcântara.

Já nas lutas, uma das principais batalhas foi a de Santo Amaro, ao lado das de Pirajá, Cachoeira e outras. Aqui, a aristocracia agrária se juntou aos populares, aos religiosos, num destes momentos da história que são tão grandiosos que fatalmente se transformam em lendas e comemorações -ao ponto de parecerem sobre-humanos, fora da dimensão deste nosso dia-a-dia. No entanto, eram homens e mulheres comuns - que apenas saíam do seu dia-a-dia para, talvez sem saber direito, adentrarem pela porta da história.

Já a outra dimensão dessa coragem é praticada até hoje. Está na base da alma baiana. Trata-se do humor. Ali, naquele contexto de guerra, ele assumia a forma de quadrinhas que se espalhavam como rastilho de pólvora. Cito dois exemplos, recolhidos pelos pesquisadores:

O Paulo, Ruivo e Madeira
Todos três numa janela
Esfolando um pé de burro
Supondo ser de vitela

[importante lembrar que Paulo, Ruivo e Madeira eram as forças de ocupação]

A vitória do 2 de Julho logo clamava comemoração:
Quem não bebe neste dia
Quem não toma bebedeira
Não é parente do Lima
É parente do Madeira

É impossível recuperar se essa ou aquela quadrinha foi criada aqui ou em Cachoeira ou em Salvador. E isso também não importa. O que importa é que estas quadrinhas circulavam aqui com força, porque aqui se concentrava a resistência, aqui os batalhões recarregavam suas armas de pólvora e suas almas de coragem; circulavam também em Salvador, onde a população vivia sob o tacão dos ocupantes. Essas quadrinhas eram com que um trago de coragem diante do poderio do dominador, porque, sabemos, o humor corrói o medo.

Quadrinhas como estas eram peças de propaganda no sentido mais genuíno: o sentido da propagação da vontade de ser livre, da força da libertação. Constituíam o marketing popular da guerrilha, que cuspia o fogo da gozação, da ironia, da mordacidade, para enfraquecer a alma ocupante, arrasá-la. Para mostrar que ali nascia uma outra alma, e essa era a baiana, a brasileira. Era, portanto, uma batalha de almas.

Dá para escutar nelas, ainda hoje, um quê de caboclos, uma ressonância de gente do povo, um eco de Encourados do Pedrão, junto com o discurso elaborado da Câmara.

As forças opressoras não deixavam por menos. Respondiam com quadrinhas que igualmente buscavam o efeito desmoralizante - como esta, que parodiava o nosso Hino da Independência:

Desgraçados brasileiros
Descendentes da Guiné
Trocaram as cinco chagas
Pelo fumo e o café

Aqui dá para perceber que os ocupantes pretendiam desmoralizar os brasileiros ao apontar que um de nossos ascendentes é o negro; e que nossas referências incluem índios - ambas as etnias, naquele momento, evidentemente tidas como inferiores.

Mas, ao tentar desmoralizar, as quadrinhas das forças ocupantes acabavam na realidade apontando com força, para nós mesmos, os traços basilares de nossa identidade - a importância dos africanos e dos índios na composição de nossa identidade de brasileiros.

Todas essas singularidades fazem da Bahia como um todo e de Santo Amaro, em especial, lugar essencial para se entender a história de resistências do povo brasileiro. Histórias que estão vivas nas manifestações populares da cidade e também no patrimônio histórico da região do Recôncavo.

Por essa importância que tem Santo Amaro, o Iphan tem dado atenção a alguns projetos aqui. Em breve, espero poder anunciar a restauração da Igreja de Nossa Senhora da Purificação, que sabemos ser uma reivindicação dos cidadãos santamarenses, e que foi colocada para nós por Dona Canô. Essas obras ainda estão em estudo, mas devem ser anunciadas em breve.

Além disso, estamos finalizando a renovação do convênio com o Pontão de Cultura Roda de Samba, que está alocado no Solar Conde do Subaé, restaurado pelo Iphan.

Fonte: http://www.cultura.gov.br/site/2009/06/15/pronunciamento-do-ministro-da-cultura-juca-ferreira-no-nucleo-de-incentivo-a-cultura-de-santo-amaro/

Um comentário:

Evandro Vieira disse...

Sinto um grande orgulho dos meus antepassados e como santoamarense legítimo, peço aos governos estadual e federal,que façam um resgate na história divulgando e dando o real valor ao nosso povo que tão bravamente deu a sua vida por nossa liberdade,á 14 de junho de 1822 .