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quinta-feira, 30 de abril de 2009

Por uma Cultua da Paz

Discurso do ministro da Cultura interino, Juca Ferreira, durante o Encontro de Intelectuais e Artistas do Mundo pela Unidade e Soberania da Bolívia
LA PAZ, 29 DE JULHO DE 2008

Vivemos hoje, no nosso continente, tempos de mudança política, de retomada da democratização de nossos países e de integração regional. Após a superação dos delírios neoliberais que tão tragicamente marcaram os anos noventa, a região voltou a assistir neste início de século ao seu próprio crescimento econômico e à incorporação dos estratos mais marginalizados e oprimidos das sociedades sul-americanas. Vivemos, enfim, tempos de renovação da esperança; uma nova era na qual a cultura tem a prerrogativa de romper preconceitos e assumir toda a sua diversidade, abrindo os caminhos para o diálogo, a cooperação e o desenvolvimento sustentável.

Aos nossos antigos sonhos de liberdade e igualdade, agora se somam os ideais de integração na diversidade e incorporação das maiorias latino-americanas no desenvolvimento. Nos anos 80, conquistamos a democracia política, e agora queremos a democratização do acesso à cultura e aos bens e serviços sociais, acompanhada da revalorização do espaço público até o ponto em que todos possam exercer plenamente seus direitos, suas expressões culturais, coletivas e individuais e que possamos também vivenciar a interculturalidade.

Faces da mesma moeda, o desenvolvimento com sustentabilidade ambiental e justiça social e uma integração que respeita a diversidade e uma diversidade que integra os povos são as novas bandeiras de luta das forças progressistas em nossa região e no mundo. Estamos mais uma vez agora reunidos contra toda fórmula de globalização pasteurizada e contra toda forma de barbárie. Não aceitamos a homogeneização cultural, assim como não aceitamos também que as diferenças existentes e não existentes entre nós sejam sorrateiramente utilizadas como pretexto para o confronto, a divisão e a guerra. E caberá aos nossos processos democráticos, em cada um de nossos países, ir consolidando a inclusão social sem discriminações e exclusões.

Senhoras e senhores, a celebração da paz realizada no dia de hoje, sugestivamente nesta cidade que é denominada de “La Paz”, no coração da América do Sul e palco representativo de tantas lutas sociais históricas, está respaldada em pelo menos dois documentos internacionais característicos dos novos ideais que se desenham para o século XXI. O primeiro destes documentos é a Convenção da Unesco sobre a Proteção e Promoção da Diversidade das Expressões Culturais. Nele, temos uma espécie de protocolo de Kioto da cultura, isto é, um acordo multilateral de amplo alcance, cuja adesão já atinge mais de uma centena de países e pelo qual se pode enfrentar a devastação das culturas. A implementação eficaz das diretrizes e dos princípios que regem a Convenção da diversidade deve impedir que a lógica econômica, uma vez dominante, destrua múltiplos modos de vida, crenças, atitudes e valores.

Desde que possamos garantir o direito à cultura sem nos fragmentarmos ou escamotearmos desigualdades materiais, a convenção da diversidade tem a força de nos ajudar a explorar o que há de melhor na globalização, que é a sua capacidade virtualmente infinita de comunicabilidade, de fazer com que as culturas se tornem mais visíveis e acessíveis, sem se tornarem meras mercadorias ou produtos para o consumo descartável. Mais do que um estreitamento de fronteiras e apenas livre comércio, a globalização deve significar o alargamento dos horizontes; a possibilidade de trocas simbólicas plurais por meio das novas tecnologias, associadas à renovação de experiências culturais e à livre circulação de pessoas.

Aproveito a oportunidade, na condição de Ministro da Cultura Interino do Brasil e cidadão brasileiro, para me juntar aos que repudiam a diretiva do retorno aprovada pelo Parlamento Europeu. Esta lei de imigração ultrapassada é tudo o que não queremos para as nossas relações internacionais, é tudo o que globalização não pode ser, pois vai frontalmente contra o espírito contido na Convenção da diversidade. Esta lei européia institucionaliza a xenofobia, corrói a confiança internacional e fere gravemente os direitos humanos e a liberdade, nos fazendo recordar os piores momentos de intolerância e racismo no mundo.

O segundo documento valioso para a nossa celebração da paz é a Declaração de Integração Cultural do Mercosul, assinada recentemente em Buenos Aires pelos Ministros da Cultura presentes no bloco. Esta declaração do Mercosul reafirma o papel da cultura para a união dos povos sul-americanos e para o desenvolvimento compartilhado da região. A cultura é o cimento da integração regional não apenas porque consolida novas identidades entre as nações, mas porque, diferentemente da economia e das forças de mercado, a cultura não distingue os países entre melhores e piores, entre mais ou menos desenvolvidos, entre aqueles com maior ou menor índice de risco. Na cultura não há assimetrias como aquelas que verificamos no campo econômico, e justamente por isso encontramos na cultura um antídoto contra os conflitos e eventuais ressentimentos.

Com a Declaração Cultural do MERCOSUL, demos um passo decisivo para os caminhos futuros do bloco. O comércio de mercadorias e serviços deixa de ser o único motor e objetivo da integração. Agora, muito além de uma área de livre comércio e união aduaneira, almejamos também uma área de livre cultura; um lugar onde a diversidade possa se manifestar em toda a sua plenitude sem qualquer prejuízo à unidade nacional ou regional; um lugar de intercâmbio permanente, de circulação de pessoas e bens simbólicos, um exemplo de convívio pacífico e dinâmico para o mundo.

A Declaração de Integração Cultural do Mercosul e a Convenção da Diversidade da Unesco são dois documentos novos que se complementam de maneira muito oportuna e respaldam nossas aspirações no dia de hoje por uma Bolívia heterogênea e unida. Quando jovens estudantes universitários humilham, torturam e queimam as roupas de um grupo de indígenas e representantes de povos originários do país, arrastados violentamente em praça pública, algo de muito grave se passa no interior do tecido social desta comunidade. Tal violência é uma ameaça não apenas ao povo e ao governo boliviano, mas também uma ameaça aos ideais democráticos e humanistas em geral, em franca contradição com a Declaração do Mercosul e com a Convenção da Diversidade da Unesco, além de muitos outros princípios e compromissos internacionais já assumidos e consolidados no concerto das nações.

O pesadelo de uma remota desintegração boliviana representa também um pesadelo para todos nós. As próximas semanas serão cruciais para os destinos do país. Esperamos que a cultura de paz predomine no final, que as mudanças observadas até aqui não sejam em vão ou mesmo retrocedam, e que o pluralismo e a integridade do povo boliviano sejam assegurados. Os caminhos da paz nem sempre são os mais fáceis e retos. Os ideais nem sempre se tornam realidade. Mas tampouco há infalibilidade e determinismo histórico capazes de impedir que o coração da América do Sul se estabilize. Para isso estamos aqui hoje. Para dizer sim a uma só Bolívia multiétnica, democrática e soberana.

A soberania boliviana é um bem inalienável. Sua violação representaria, a um só tempo, um ato retrógrado, conservador e na contramão equivocada da história. Não se pode dividir a Bolívia em fragmentos menores ou lançá-la irresponsavelmente ao precipício social sem pretender fulminar todo processo de união da América do Sul. Sim, meus irmãos latino-americanos e demais amigos, a dissolução da Bolívia representaria a morte da esperança em muitas gerações. Representaria a vitória do atraso; daquelas mesmas forças que no passado quiseram transformar a nossa região em um grande balcão de negócios, completamente perdida e vulnerável aos instintos predatórios do poder econômico internacional.

O passado volta a nos assombrar com seus navios de guerra, com suas leis anacrônicas, com a violência irascível nas ruas. Mas não tenhamos medo, pois a força da cultura de paz preponderará. Essa força que entre aymaras, quéchuas, brancos, mestiços, cocaleros, campesinos, trabalhadores urbanos e estudantes, do oriente e do ocidente, das terras altas às terras baixas, das cidades mais ricas às mais pobres… Essa força que, em meio a tanta diversidade, conseguiu ao longo de várias décadas erguer uma só nação, um só povo, que o mundo aprendeu a reconhecer nas cores da sua bandeira.

Meus caros amigos: viva o povo boliviano! Vivam as nações sul-americanas e toda a América Latina! Viva a integração e a diversidade cultural pulsantes no sul das Américas!

Obrigado
Gracias
Y hasta la vitoria de la paz!



Publicado por Carol Lobo/Comunicação Social
Fonte: http://www.cultura.gov.br/site/2008/07/29/discurso-do-ministro-da-cultura-interino-juca-ferreira-em-la-paz-durante-o-encontro-de-intelectuais-e-artistas-do-mundo-pela-unidade-e-soberania-da-bolivia/

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