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quarta-feira, 12 de novembro de 2008

As Fontes da Conduta Soviética (tradução)

O texto a seguir é uma tradução do texto original "The Sources of Soviet Conduct", de George Kennan (o famoso Long Telegram), publicado na revista Foreign Affairs, em Julho de 1947.

A tradução, feita por mim, foi publicada na edição de junho de 2005 (Volume 14 - Nº 1) da revista Política Externa (editora Paz e Terra). O material é, portanto, protegido por leis de direitos autorais. É expressamente proibida a cópia, a reprodução ou a utilização para qualquer finalidade sem consentimento expresso da editora.

O Longo Telegrama representou o principal elemento teórico de apoio às teses conservadoras da política norte-americana, desde a década de 1950. Seu maniqueísmo simplista denota importantes aspectos do viés intelectual de parte influente da intelectualidade dos Estados Unidos. O documento constitui, portanto, importante fonte de pesquisa e reflexão.

Sua leitura crítica serve, sobretudo, para entender melhor o modus operandi do pensamento ultraconservador estadunidense. Sua compreensão permite contemplar, de forma mais acurada, as decisões tomadas pela política externa desse país em tempos recentes. Desse modo, torna-se mais clara a postura beligerante e intransigente dos EUA durante a Guerra Fria e no período posterior à queda do Muro de Berlim.



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As Fontes da Conduta Soviética

Resumo: A personalidade política do poder soviético, tal como nós o conhecemos atualmente, é produto da ideologia e das circunstâncias: da ideologia herdada pelos atuais líderes soviéticos do movimento no qual eles tiveram sua origem política, e das circunstâncias do poder que eles têm, até o momento, exercido por quase três décadas na Rússia. Poucas tarefas de análise psicológica poderiam ser mais difíceis do que tentar traçar a interação destas duas forças e o papel relativo de cada uma delas na determinação da conduta soviética oficial. No entanto, tal empreendimento é necessário caso queiramos entender tal conduta e nos opormos a ela eficazmente.

I
A personalidade política do poder soviético, tal como nós o conhecemos atualmente, é produto de ideologia e de circunstâncias: da ideologia herdada pelos atuais líderes soviéticos do movimento no qual eles tiveram sua origem política, e das circunstâncias do poder que eles têm, até o momento, exercido por quase três décadas na Rússia. Poucas tarefas de análise psicológica poderiam ser mais difíceis do que tentar traçar a interação destas duas forças e o papel relativo de cada uma delas na determinação da conduta soviética oficial. No entanto, tal empreendimento é necessário caso queiramos entender a sua conduta e nos opormos a ela eficazmente. É difícil resumir o conjunto de conceitos ideológicos com os quais os líderes soviéticos chegaram ao poder. A ideologia Marxista, na sua vertente russa e comunista, sempre esteve em processo de evolução sutil. Os elementos nos quais se apoia são vastos e complexos. Podemos resumir, entretanto, as principais características do pensamento comunista existente em 1916 da seguinte forma: (a) o fator central na vida humana, o fator que determina o caráter da vida pública e a “fisionomia da sociedade”, é o sistema de produção e troca de bens materiais; (b) o sistema capitalista de produção é um sistema abominável que leva, de forma inevitável, à exploração da classe operária pelos detentores do capital. Tal sistema é incapaz de desenvolver adequadamente os recursos econômicos de uma sociedade e distribuir justamente os bens materiais produzidos pelo trabalho humano; (c) o capitalismo contém as sementes da sua autodestruição e, tendo em vista a inabilidade dos detentores do capital em se adaptar às mudanças econômicas, resultará portanto, de forma inexorável, na transferência revolucionária do poder para a classe trabalhadora; (d) o imperialismo, fase final do capitalismo, conduz à guerra e a revolução.

Pode-se resumir o resto de tal pensamento com as próprias palavras de Lenin: “A desigualdade no desenvolvimento político e econômico é a lei inflexível do capitalismo. Disto se conclui que a vitória do socialismo pode acontecer em alguns países capitalistas ou mesmo em um único país capitalista. Os proletários vitoriosos daquele país, tendo expropriado os capitalistas e organizado no seu próprio país a produção socialista, insurgir-se-ão contra o restante do mundo capitalista, atraindo para sua esfera, no curso deste processo, as classes oprimidas de outros países.” [ver nota 1] Há que se tomar nota do fato que tal análise não contém a conjetura de que o capitalismo sucumbiria sem a revolução proletária. Uma estocada derradeira, desfechada pelo movimento proletário revolucionário, seria necessária para derrubar a estrutura cambaleante. Considerava-se, porém, inevitável que, cedo ou tarde, tal estocada fosse dada.

Ao longo dos 50 anos anteriores à eclosão da revolução, este modelo de pensamento tinha exercido grande fascinação entre os membros do movimento revolucionário russo. Frustrados, insatisfeitos, sem esperanças de encontrar expressão da própria personalidade nos restritos limites do sistema político tsarista - ou impacientes demais para procurá-la -, necessitando, não obstante, amplo suporte popular para sua opção sanguinária de revolução social entendida enquanto meio de aperfeiçoamento social, estes revolucionários encontraram na teoria marxista uma racionalização extremamente conveniente para seus desejos instintivos. O marxismo lhes propiciava uma justificação pseudocientífica para sua impaciência, para sua negação categórica de todos os valores do sistema tsarista, para seu ardente desejo de vingança e poder e para sua propensão a atalhos para obtê-los. Não é, portanto, nenhuma surpresa que eles tivessem chegado ao ponto de acreditar de modo icplícito na verdade e na solidez dos ensinamentos marxistas-leninistas, tão adequados aos seus próprios impulsos e emoções. Não há razão para duvidarmos de sua sinceridade. Trata-se de um fenômeno tão antigo quanto a própria humanidade. Tal fenômeno nunca havia sido antes descrito com tanta aptidão quanto por Edward Gibbon, que escreveu em “O Declínio e Queda do Império Romano”: “a pequena distância que separa o entusiasmo do embuste é sutil e escorregadia; o gênio de Sócrates nos dá testemunho notável de como um homem sábio se engana, de como um homem bom pode enganar a outros, de como a consciência pode cair em um estado confuso e medíocre de sonolência, um estado entre o enganar-se a si mesmo e a fraude deliberada”. Foi, destarte, com tal conjunto de conceitos que os membros do partido Bolchevique chegaram ao poder. Há que se notar que, durante todos estes anos de preparação para a revolução, a atenção destes homens, como a atenção do próprio Marx, havia se dirigido mais para a necessária derrubada do poder rival, a qual, na sua visão, teria que preceder a introdução do Socialismo, do que para a forma futura que o mesmo assumiria [ver nota 2]. Suas visões acerca do programa positivo a ser implementado a partir do momento no qual se tomasse o poder eram, portanto, nebulosas, quiméricas e impraticáveis na maioria das vezes. Não havia um programa acertado que fosse além da nacionalização da indústria e da expropriação do grande capital acionário. O tratamento a ser dado aos camponeses, que segundo a formulação marxista não se equiparavam aos proletários, tinha sido sempre um ponto vago no padrão de pensamento comunista e permaneceu sendo um ponto de controvérsia e hesitação durante os primeiros dez anos de poder comunista.

As circunstâncias do período imediatamente posterior à revolução –a existência na Rússia de guerra civil e a intervenção estrangeira, ao lado do óbvio fato que os Comunistas representavam somente uma pequena minoria do povo Russo– fez do estabelecimento do poder ditatorial uma necessidade. O experimento com o “comunismo de guerra” e a tentativa abrupta de eliminar a produção privada e o comércio tinham causado, infelizmente, conseqüências econômicas desfavoráveis e produzido ainda mais amargores contra o novo regime revolucionário. Conquanto o temporário relaxamento do esforço de comunização na Rússia, representado pela Nova Política Econômica, aliviasse parte deste infortúnio econômico, servindo assim aos seus objetivos, tal relaxamento também fez com que se tornasse evidente que o “setor capitalista da sociedade” permanecia preparado para lucrar com qualquer relaxamento da pressão governamental e iria constituir sempre, caso lhe fosse permitido continuar a existir, um poderoso elemento de oposição ao regime soviético e um sério rival na luta por influência sobre o país. De certa forma, a mesma situação também vigorou com relação à pessoa do agricultor, o qual, de sua maneira simples, também era um pequeno produtor capitalista.

Lenin, caso continuasse a viver, poderia ter se revelado um homem à altura do desafio de reconciliar estas forças conflitantes com o maior proveito da sociedade Russa, embora tal hipótese seja questionável. Mas, seja como for, Stalin e aqueles por ele liderados na luta pela sucessão da liderança de Lenin, não eram os tipos de homens que tolerassem forças políticas rivais na esfera de poder que eles cobiçavam. Seu senso de insegurança era grande demais. Seu tipo de fanatismo, inalterado por nenhuma das tradições anglo-saxãs de conciliação, era muito raivoso e ciumento para conjeturar qualquer compartilhamento permanente de poder. Do mundo russo-asiático do qual eles emergiram, trouxeram consigo um ceticismo em relação às possibilidades de coexistência pacífica e permanente de forças rivais. Facilmente convencidos acerca da sua própria “correção” doutrinária, eles insistiam na sujeição ou destruição de todo poder rival. Fora do partido comunista, a sociedade russa não deveria ter nenhuma rigidez. Não deveriam haver formas de atividade ou associação humana coletiva que não fossem dominadas pelo partido. A nenhuma outra força na sociedade russa seria permitido obter vitalidade ou integridade. Somente ao partido era permitido estruturar-se. Todo o resto deveria ser uma massa amorfa.

Mesmo ao âmago do partido, aplicar-se-ia tal principio. A massa de membros do partido até poderia passar pelo processo de eleições, deliberações, decisões e ações; mas deveriam ser animados, nestes processos, não pelas suas vontades e sim pela apavorante expressão da liderança do partido e pela presença onipresente “do comando” vindo do direção do partido.

Que seja salientado, mais uma vez, que é muito provável que estes homens não estivessem a procurar de forma subjetiva o absolutismo como um fim em si mesmo. Eles sem dúvida acreditavam –e era conveniente que o fizessem– que somente eles sabiam o que era bom para a sociedade e que realizariam este Bem a partir do momento em que tivessem assegurado poder incontestável. Ao procurar a segurança do seu próprio governo, entretanto, aquela massa de membros do partido não estava preparada para aceitar restrição alguma, divina ou humana que fosse, ao caráter dos seus métodos. Além disto, até que chegasse o tempo no qual esta segurança tivesse sido obtida, eles atribuíam um valor baixíssimo, na sua escala de prioridades operacionais, aos confortos e felicidades dos povos de cuja proteção sentiam-se incumbidos.

A circunstância atual mais relevante no que diz respeito ao regime Soviético é que, até o presente momento, este processo de consolidação política nunca foi completado e os indivíduos no Kremlin continuam a ser predominantemente absorvidos pelo esforço para consolidar e tornar absoluto o poder que eles conquistaram em novembro de 1917. Eles se empenharam em consolidar tal poder, em primeiro lugar, contra forças domésticas no seio da própria sociedade Soviética, devido ao fato de que a ideologia, como nós havíamos analisado, os ensinara que o mundo exterior era hostil e que era seu dever, portanto, derrotar as forças políticas acolá de suas fronteiras. As mãos poderosas da história e da tradição russa os sustentavam nessa crença. Por fim, sua própria intransigência agressiva em relação ao mundo exterior começou a encontrar sua própria reação e eles logo se viram obrigados a, nas palavras de Gibbons, “castigar a rebeldia” que eles mesmos tinham estimulado. É um privilégio inquestionável de cada homem provar correta sua tese de que o mundo é seu inimigo; pelo simples fato que, caso ele a reitere com freqüência suficiente e faça dela o motivo de sua conduta, ele estará fadado a ter razão.
continuado...

É da natureza do mundo mental dos líderes soviéticos, bem como do caráter de sua ideologia, acreditar, na verdade, que nenhuma oposição possa ser reconhecida de forma oficial como possuidora de qualquer mérito ou justificativa. Tal oposição só poderia emanar, em teoria, das forças hostis e incorrigíveis do capitalismo moribundo. Enquanto os vestígios do capitalismo fossem oficialmente reconhecidos na Rússia, seria possível culpá-los de modo parcial, enquanto elementos intrínsecos, pela manutenção de uma forma ditatorial de sociedade. Quando tais vestígios foram, entretanto, pouco a pouco liquidados, esta justificativa dissolveu-se; e quando foi declarado oficialmente que eles haviam desaparecido de forma completa, tal justificativa desapareceu por inteiro. Este fato criou uma das mais básicas compulsões que passou a atuar sobre o regime soviético: como o capitalismo não mais existisse na Rússia e como não se pudesse admitir que houvesse oposição séria ou generalizada ao Kremlin emanando de forma espontânea das massas libertas sob sua autoridade, tornou-se necessário justificar a conservação da ditadura pela ênfase na ameaça do capitalismo estrangeiro.

Isto aconteceu desde os primórdios. Em 1924, Stalin defendeu de forma específica a manutenção dos “órgãos de supressão”, principalmente, entre outros, o exército e a polícia secreta pela razão de que “enquanto houver um cerco capitalista haverá o perigo de intervenção, com todas as conseqüências que emanam daquele perigo.” De acordo com esta teoria, e desde então, todas as forças internas de oposição na Rússia foram descritas de forma constante como sendo agentes de forças estrangeiras de reação, antagônicas ao poder Soviético. Justamente por isto, foi colocada tremenda ênfase na tese comunista original de um antagonismo de base entre os mundos capitalista e socialista. Fica evidente, devido aos muitos indícios, que tal ênfase não encontra fundamento na realidade. Os fatos reais tornaram-se confusos pela existência, no exterior, de ressentimento genuíno causado pela filosofia e pelas táticas soviéticas e, eventualmente, pela existência de grandes centros de poder militar, em particular o regime Nacional Socialista na Alemanha e o governo japonês do final dos anos 30, que tinham efetivamente desígnios agressivos contra a União Soviética. Há, entretanto, evidência ampla de que a ênfase dada por Moscou à ameaça exterior contra a qual a sociedade soviética se confronta baseia-se não nas realidades do antagonismo externo mas sim na necessidade de encontrar justificativas exteriores para a manutenção da autoridade ditatorial na própria Rússia.

Nessas circunstâncias, a manutenção deste padrão de poder soviético, qual seja, a procura pela autoridade ilimitada nos assuntos internos, acompanhada pelo cultivo do quase mitológico conceito da hostilidade externa implacável, foi muito longe ao modelar a máquina atual de poder soviético tal como nós a conhecemos hoje. Os órgãos internos da administração que não serviram a estes desígnios foram deixados à míngua. Os órgãos que serviram a estes desígnios tornaram-se imensamente inchados. A segurança do poder soviético passou a repousar na férrea disciplina do partido, na severidade e na ubiqüidade da polícia secreta e no monopólio intransigente do estado. Os “órgãos de supressão,” nos quais os líderes soviéticos tinham procurado proteção contra forças rivais, tornaram-se, em grande medida, os mestres daqueles para os quais tinham sido designados para servir. A maior parte da estrutura de poder soviética está, nos dias atuais, comprometida com o aperfeiçoamento da ditadura e com a manutenção do conceito segundo o qual a Rússia encontrar-se-ia em um estado de sitio, com o inimigo espreitando atrás do muro de modo ameaçador. Os milhões de seres humanos que são parte desta estrutura de poder são obrigados a defender, a todo custo, tal conceito, pois, sem ele, tais indivíduos tornar-se-iam supérfluos.

Da forma como encontram-se as coisas nos dias de hoje, os atuais governantes já não podem mais sonhar em desvencilharem-se deste órgãos de supressão. A busca pelo poder absoluto, levada à cabo por quase três décadas com crueldade sem igual nos tempos modernos (no seu escopo, ao menos), produziu internamente, da mesma forma como produziu externamente, sua própria reação. Os excessos do aparato policial inflamaram a potencial oposição ao regime e fizeram dela algo muito maior e mais perigoso do que teria sido antes deste excessos começarem. Mais do que nunca, os governantes já não podem prescindir da ficção com a qual a manutenção do poder ditatorial foi defendida. Pelo fato que tal ficção foi canonizada na filosofia soviética pelos excessos que já foram cometidos em seu nome; e que estão esteados na estrutura de pensamento soviética, nos dias atuais, por vínculos muito maiores do que a mera ideologia.

II
O conhecimento histórico que vimos até aqui já nos é suficiente. O que isto significa em termos da personalidade política do poder soviético tal como o conhecemos nos dias de hoje?

Da ideologia original, nada foi oficialmente descartado. Mantem-se a crença na maldade fundamental do capitalismo, na inevitabilidade de sua destruição, na obrigação do proletariado em ajudar a levá-la a termo e conquistar o poder em suas próprias mãos. A ênfase passou a ser colocada, entretanto, sobretudo naqueles conceitos que se relacionam de modo mais específico com o próprio regime soviético: sua posição enquanto o único regime verdadeiramente socialista em um mundo envolto em trevas e descaminhos; e as relações de poder dentro dele.

O primeiro destes conceitos é o do antagonismo inato entre o capitalismo e o socialismo. Já vimos como tal conceito entranhou-se, de forma tão profunda, nas fundações do poder soviético. Tal fato tem implicações profundas para a conduta da Rússia enquanto país membro da sociedade internacional. Isto significa que não haverá jamais, da parte de Moscou, nenhuma conjetura sincera de uma comunhão de intenções entre a União Soviética e os países considerados capitalistas. Moscou há de supor, de modo invariável, que as intenções do mundo capitalista são antagônicas àquelas do regime soviético e, portanto, aos interesses dos povos que ele controla. Caso o governo soviético por ventura coloque sua assinatura em documentos que indiquem o contrário, há que se considerar tal ato como manobra tática admissível no trato com o inimigo (o qual não tem honra) e interpretá-lo dentro do espírito do caveat emptor. (NT: expressão latina que significa “o comprador que se cuide”; princípio segundo o qual é o comprador quem assume a responsabilidade pela compra de um bem e deveria, portanto, examiná-lo de forma cuidadosa antes de comprá-lo.) O antagonismo persiste, no essencial. É postulado. E dele fluem muitos dos fenômenos que nós achamos perturbadores na condução da política externa do Kremlin: a discrição, a falta de franqueza, a duplicidade, a suspeita cautelosa e a sua hostilidade fundamental em termos de propósitos. Estes fenômenos devem continuar a existir, pelo futuro próximo. Podem haver variações de grau e de ênfase. Uma ou outra destas características de sua política pode ser relevada temporariamente ao segundo plano, quando houver alguma coisa que os Russos queiram de nós; neste caso, sempre haverá alguém que dará um passo a frente e anunciará alegremente que “os russos mudaram,” e alguns tentarão inclusive receber o mérito de haver realizado tais “mudanças”. Não devemos, contudo, nos deixar enganar por tais manobras táticas. Estas características da política soviética, bem como o postulado do qual elas emanam, são fundamentos da natureza interna do poder soviético e nos acompanharão, em primeiro ou segundo plano, até que se mude a natureza do mesmo.
continuado...

Isto quer dizer que nós continuaremos a julgar difícil lidar com os Russos por um longo tempo. Não significa que devamos considerá-los envolvidos em um projeto de tipo compulsório para a derrubada da nossa sociedade em uma data determinada. A teoria sobre a inevitabilidade da derrocada final do capitalismo tem a afortunada conotação de que não há pressa neste sentido. As forças do progresso não necessitam se apressar na preparação do derradeiro coup de gráce. (N.T.: em francês no original) O essencial, entretanto, é que a “pátria socialista” -aquele oásis de poder que já foi ganho para o socialismo e cuja personificação a União Soviética é expressão- deveria ser celebrada e defendida por todos os bons comunistas, tanto interna quanto externamente, sua bem-aventurança deveria ser fomentada e seus inimigos deveriam ser atormentados e estorvados de forma persistente. A promoção prematura de projetos revolucionários “aventureiros” no exterior, que poderia representar algum tipo de constrangimento para o poder soviético, seria injustificável e, até mesmo, tida por ato contra-revolucionário. A causa socialista é o apoio e promoção do poder soviético, tal como definido em Moscou.

Isto nos traz até o segundo dos conceito caros ao panorama soviético contemporâneo, qual seja, a infalibilidade do Kremlin. Tal conceito de poder soviético, que não permite pontos localizados de organização fora do próprio partido, exige, em teoria, que a liderança do mesmo permaneça sendo a única depositária da verdade. Pois, caso se pudesse encontrar a verdade alhures, não haveria justificativa para expressão do partido em atividade organizada. Isto é, todavia, exatamente aquilo que o Kremlin não pode e não deve permitir.

A liderança do Partido Comunista sempre esteve com razão, portanto, e isto já desde 1929, quando Stalin formalizou o seu poder pessoal ao anunciar que as decisões do Politburo estavam sendo tomadas de modo unânime.

Neste principio de infalibilidade é que se fundamenta a férrea disciplina do partido comunista. De fato, os dois conceitos se auto-sustentam de forma mútua. Disciplina perfeita requer o reconhecimento da infalibilidade. Infalibilidade requer a observância à disciplina. E os dois juntos determinam amplamente o comportamento de todo o aparato de poder soviético. Seu efeito não pode, entretanto, ser compreendido a não ser que um terceiro fator, a saber, seja considerado: o fato que a liderança tem liberdade para implementar, a qualquer tempo, por objetivos táticos, qualquer tese específica que julgar conveniente para sua causa; e a requerer a aceitação fiel e inquestionável de tal tese pelos membros de todo o movimento. Isto quer dizer que a verdade não é constante, mas sim criada, para todos os planos e objetivos, pelos próprios governantes. Ela pode variar a cada semana, a cada mês: não se trata de nada imutável -nada que emane diretamente da realidade objetiva. Trata-se simplesmente da mais recente manifestação de juízo daqueles nos quais, por suposto, o juízo máximo reside, haja visto representarem a lógica da história. O efeito acumulativo de tais fatores é oferecer, a tudo quanto estiver subordinado ao aparato de poder soviético, obstinação inabalável e firmeza na sua orientação. Tal orientação pode ser mudada de forma discricionária pelo Kremlin, mas não pode ser mudada por nenhum outro poder. Uma vez que determinada orientação partidária tenha sido definida para determinado assunto da política corrente, toda a máquina governamental soviética, incluindo o mecanismo diplomático, se move de forma inexorável através do caminho prescrito, tal como um persistente carrinho de brinquedo, fadado a seguir numa certa direção prefixada e só parar ao encontrar alguma força irrefutável. Os indivíduos que compõem tal máquina são inacessíveis à razão ou aos argumentos que vêm de fontes externas. Todo seu treinamento os ensinou a desconfiar e a menosprezar o talento persuasivo loquaz do mundo exterior. Tal qual um cachorro branco diante da vitrola, eles somente escutam a “voz do mestre”. Caso seja necessário revogar as últimas diretrizes que lhes foram transmitidas, é o mestre quem há de fazê-lo. O representante estrangeiro não pode, portanto, esperar que suas palavras os impressionem. O máximo que pode esperar é que tais palavras sejam transmitidas àqueles que estão no topo, capazes de mudar a linha programática do partido. Improvável seria, todavia, que mesmo aqueles que estão no topo se deixassem influenciar por qualquer lógica normal do discurso do representante da burguesia. Visto não haver qualquer encanto por propósitos comuns, não pode haver nenhuma simpatia por uma aproximação mental comum. Por esta razão, os fatos falam mais alto às orelhas do Kremlin que as palavras; e as palavras carregam o maior peso quando imbuídas do poder de refletir fatos de validade indiscutível, ou quando estão embasadas por eles.

Vimos, entretanto, que o Kremlin não está sujeito a nenhuma coerção ideológica incontestável para que execute seus desígnios apressadamente. Tal qual a Igreja, o Kremlin lida com conceitos ideológicos que são válidos a longo prazo, e pode permitir-se ter paciência. O Kremlin não se sente no direito de arriscar conquistas existentes da revolução pela causa de futuras (ninharias vãs. Mesmo segundo o ensinamento do próprio Lenin, exige-se grande cautela e flexibilidade na persecução dos propósitos comunistas. Estes receios são, repetimos, fortificados pelas lições da história russa: de séculos de batalhas obscuras entre forças nômades por pedaços de uma vasta planície sem fortificações. Cautela, prudência, flexibilidade e logro são, neste contexto, as qualidades valiosas; e seu valor encontra apreço natural nas mentes dos russos e dos orientais. Assim sendo, o Kremlin não tem nenhum remorso quanto a bater em retirada frente a força superior. Além disto, por não estar coagido pelo tempo, não está sujeito a pânicos freqüentes em função da necessidade de tal retirada. Sua ação política é um curso fluído que se move de forma constante, onde quer que lhe seja permitido mover-se, em direção a uma finalidade predeterminada. Sua principal preocupação é assegurar-se de haver preenchido cada recesso e cada fenda a sua disposição na bacia do poder mundial. Caso encontre, todavia, barreiras inexpugnáveis no seu curso, as aceita filosoficamente e se acomoda a elas. O mais importante é sempre haver pressão, ininterrupta e constante, na obtenção da finalidade desejada. Não há nenhum traço, na psicologia soviética, de qualquer sentimento que seja segundo o qual tal finalidade deva ser atingida em um momento predeterminado.

Estas considerações fazem com que seja, ao mesmo tempo, mais fácil e mais difícil lidar com a diplomacia soviética do que com a diplomacia de líderes individuais agressivos, tais como Napoleão e Hitler. Por um lado, ela é mais sensível à forças contrárias, mais propensa a aquiescer em determinados setores do fronte diplomático quando esta força contrária é percebida como sendo forte e, portanto, mais racional dentro do contexto da lógica e da retórica do poder. Por outro lado, a diplomacia soviética não se deixa vencer ou desanimar de modo fácil por uma única vitória da parte dos seus oponentes. De modo que a persistência paciente que a anima significa que ela pode ser contida, de forma eficaz, não por atos esporádicos, que representam os caprichos momentâneos da opinião democrática, mas sim, de forma exclusiva, por políticas inteligentes de largo alcance, implementadas pelos adversários da Rússia – políticas não menos firmes nos seus objetivos e não menos matizadas e expeditas no seu emprego do que aquelas da própria União Soviética.

Nestas circunstâncias, é evidente que o principal elemento de qualquer política dos Estados Unidos em relação à Rússia deva ser, a longo prazo, o refreamento paciente, ainda que firme e vigilante, das tendências expansivas da Rússia. (N.T.: O substantivo containment foi traduzido, nesta tradução, por refreamento e o verbo to contain por refrear). É importante assinalar, contudo, que tal política não tem nada que ver com encenação voltada para o mundo exterior: com ameaças estrondosas ou gestos supérfluos de “dureza” dirigidos ao exterior. Embora o Kremlin seja, em essência, flexível nas suas reações às realidades políticas, ele não é, de forma alguma, insensível a considerações de prestigio. Como qualquer outro governo, o Kremlin pode ser colocado, por gestos ameaçadores e sem tato, em uma posição na qual ele não pode permitir-se ceder, ainda que isto possa ser um ditame do seu senso de realismo. Os líderes russos são juizes perspicazes da psicologia humana e, como tal, altamente conscientes de que o descontrole e a perda de moderação nunca são fonte de força nos negócios políticos. Eles são ágeis em explorar tais evidências de fraqueza. Por estas razões, é uma condição sine qua non (NT: em latim no original) de sucesso, ao se lidar com a Rússia, que o governo estrangeiro em questão permaneça sempre calmo e sereno, e que suas demandas sobre políticas russas sejam manifestadas de tal forma que um espaço aberto seja deixado para uma aquiescência que não seja muito prejudicial ao prestigio russo.

III
À luz do exposto acima, percebe-se claramente que a pressão soviética contra as instituições livres do mundo ocidental é algo que pode ser refreado pela aplicação hábil e cautelosa de força contrária em uma série de diferentes pontos políticos e geográficos, correspondentes aos artificio e manobras da política soviética. Não se pode, entretanto, ignorá-la nem desconhecê-la. Os Russos ambicionam um duelo de duração infinita e acreditam já haver, nele, contabilizado grandes êxitos. Há que se ter em mente que houve um tempo no qual o Partido Comunista representou uma minoria bem maior no contexto da vida nacional Russa do que o que o poder soviético representa, nos dias de hoje, para a comunidade internacional.

Se, por uma lado, a ideologia convence os líderes da Rússia que a verdade está ao seu lado e que eles podem, portanto, permitir-se esperar, aqueles de nós, por poutro lado, que não se sujeitam a tal ideologia, são livres para examinar objetivamente a validade de tais premissas.

A tese soviética não somente sugere total falta de controle do ocidente sobre seu próprio destino econômico, como também supõe unidade, disciplina e paciência da parte da Rússia por um período infinito. Tragamos esta visão apocalíptica de volta a realidade e suponhamos que o mundo ocidental encontre forças e desenvoltura para refrear o poder Soviético por um período de dez ou quinze anos. Que significado isto teria para a própria Rússia?

Continuado...]
Os líderes Soviéticos, aproveitando-se das contribuições das técnicas modernas para as artes do despotismo, resolveram a questão da obediência dentro dos confins do seu poder. Poucos desafiam sua autoridade; e mesmo aqueles que o fazem são incapazes de colocar em cheque, de fato, os órgãos de supressão do estado.

O Kremlin se revelou apto a relizar seus desígnios de construir na Rússia, em detrimento do interesse de seus habitantes, os fundamentos de uma indústria de metalurgia pesada, que, na verdade, ainda não está completa, mas que continua, não obstante, a crescer e se aproxima da indústria de metalurgia pesada dos outros grandes países industriais. Tudo isto, contudo, tanto a manutenção da segurança política interna quanto a construção da indústria pesada, foi levado a cabo com um terrível custo em termos de vidas, energias e esperanças humanas. Foi necessário que se usasse o trabalho forçado em uma escala sem precedentes nos tempos modernos, em condições de paz. Tal política significou também descuido ou prejuízo para outras fases da vida econômica Soviética, sobretudo nas áreas da agricultura, produção de bens de consumo, habitação e transportes. A guerra acrescentou a tudo isto um tremendo custo em termos de destruição, morte e depauperamento humano. Como conseqüência, temos na Rússia, nos dias atuais, uma população física e espiritualmente cansada. A grande massa do povo está desiludida, scética e já não mais acesível, como outrora, à mágica atração que o poder soviético ainda irradia para os seus seguidores no exterior. A avidez com a qual as pessoas roubaram à igreja o mínimo respeito, por razões táticas, durante a guerra, foi testemunho eloqüente do fato de que sua disposição para a fé e a devoção encontrava pouca expressão nos propósitos do regime.

Nestas circunstâncias, há limites para o vigor físico e para a resistência de nervos das próprias pessoas. Tais limites são absolutos e compulsórios até mesmo para a mais cruel das ditaduras, pois não se pode forçar as pessoas a ir além deles. Os campos de trabalho forçado e outras agências de coação proporcionavam formas temporárias de forçar as pessoas a trabalhar mais horas do que aquelas horas que sua própria vontade ou a pressão econômica teriam ditado. Caso as pessoas sobrevivessem tal coação, teriam envelhecido antes do tempo e teriam que ser consideradas casualidades das demandas da ditadura. De qualquer forma, suas melhores habilidades já não mais encontravam-se disponíveis para a sociedade e não mais poderiam ser convocadas para servir ao estado.

Nestes casos, só as gerações mais jovems podem ajudar. As gerações mais jovens, apesar de todas suas vicissitudes e sofrimentos, é numerosa e cheia de vigor; e os Russos são um povo talentoso. Resta saber, entretanto, quais serão os efeitos para a atividade matura de tais pessoas da anômala extenuação emocional da adolescência que a ditadura Soviética criou e a querra ampliou de forma enorme. Tais coisas como proteção e serenidade no ambiente do lar praticamente deixaram de existir na União Soviética, a não ser nos confins das mais remotas vilas e fazendas. De modo que obsdervadores ainda não tem certeza se isto irá deixar suas marcas na capicadade total da geração que agora chega à maturidade. Além do mais, temos o fato que o desenvolvimento econômico soviético, conquanto possa alencar algumas conquistas formidáveis, foi profundamente esparso e desigual. Os comunistas russos que falam sobre o “desenvolvimento desigual do capitalismo” deveriam enrubecer-se com a visão da sua própria economia nacional. Neste contexto, alguns ramos da vida econômica, como a metalurgia e as indústrias de bens de produção, foram separados, de forma desproporcional, de outros setores da economia. Vê-se aí uma nação esforçando-se por transformar-se em uma das grandes nações industrializadas do mundo e que, ao mesmo tempo, ainda não tem rede rodoviária digna de nota e somente possui uma rede primitiva, em termos relativos, de ferrovias. Muito se fez para aumentar a eficiência do trabalho e para ensinar a camponeses toscos algo sobre como operar máquinas. A manutenção das máquinas e dos equipamentos permanece, entretanto, uma deficiência gritante de toda economia soviética. A depreciação deve ser enorme. Em vastos setores da vida econômica, além disto, ainda não foi possível instilar, no mundo do trabalho, nada parecido com aquela grande cultura de produção e respeito próprio em termos de técnica que caracteriza os trabalhadores qualificados do ocidente. É dificil imaginar como estas deficiências possam ser corrigidas a curto prazo por uma população cansada e abatida, trabalhando, em grande media, sob a sombra do medo e da coação. Além disto, enquanto elas não forem superadas, a Rússia permanecerá sendo uma nação vulnerável do ponto de vista econômico, e, de certo modo, impotente, capaz de exportar seu entusiasmo e de irradiar o estranho charme da sua vitalidade política rudimentar, mas incapaz de emprestar apoio moral àqueles produtos de exportação através de evidências de poder material e prosperidade. Entrementes, uma grande incerteza paira sobre a vida política da União Soviética, qual seja a incerteza envolvida na transferência de poder de um indivíduo ou grupo de indivíduos para outros. Este é, com certeza, o mais relevante problema da posição pessoal de Stalin. Devemos relembrar que sua sucessão ao auge da proeminência do moviemtno comunista, outrora ocupado por Lenin, foi a única transferência pessoal de autoridade que a União Soviética jamais conheceu. Tal transferência necessitou de 12 anos para se consolidar, custou a vida de milhões de pessoas e fez tremer as fundações do estado. O tremor provocado por ela se fez sentir em todo o movimento revolucionário, em detrimento do próprio Kremlin.

Sempre é possível que uma outra transferência de poder aconteça de forma tranquila e não conspícua, sem maiores traumas. Não obstante, é possível que as questões envolvidas possam desencadear, na expressão de Lenin, uma daquelas “tranformações terrivelmente incríveis” da “decepção sútil” à “violência generalizada”, que caracteriza a história Russa e que pode fazer tremer até mesmo as fundações do poder soviético.

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Não se trata de uma questão que diga respeito somente ao próprio Stalin. Sempre houve, desde 1938, um perigoso congelamento da vida política nos altos círculos do poder soviético. O Congresso Geral dos Sovietes da União, em teoria o corpo supremo do partido, deveria se reunir com periodicidade não menos freqüente do que uma vez a cada três anos. Oito anos já se passaram desde seu último encontro. A mortalidade de membros do partido durante a guerra foi enorme; e atualmente bem mais do que metade dos membros do partido são pessoas que nele ingressaram após o último congresso. Entrementes, o mesmo grupo pequeno de pessoas permaneceu no topo da hierarquia partidária através de uma série surpreendente de vicissitudes nacionais. Deve haver alguma explicação, certamente, para o fato de a experiência de guerra ter trazido mudanças políticas fundamentais para cada um dos grande governos do ocidente. As causas de tal fenômeno devem ser também, decerto, suficientemente simples a ponto de estar presente em algum lugar da obscuridade da vida política russa. Tais causas ainda não foram, entretanto, identificadas na Rússia.Há que se supor, em consequência disto, que mesmo no seio de uma organização tão organizada como o partido comunista haja crescente divergência em termos de idade, perspectiva e interesse entre a grande massa de membros do partido, só recentemente recrutada para o movimento, e a insignificante panelinha no topo, a se auto perpetuar no poder, cujos membros mais jovens do partido nunca puderam sequer conhecer, nem conversar pessoalmente, e com os quais não compartilham qualquer tipo de intimidade política.

Quem pode dizer se, nestas circustâncias, o eventual rejuvenescimento das esferas mais altas de autoridade (que pode ser mera questão de tempo) acontecerá de forma calma e pacífica, ou se rivais na luta pelo poder não tentarão cooptar estas massas inexperientes e sem maturidade política, com o intuito de encontrar suporte para suas pretensões? Se isto acontecesse, consequências singulares poderiam resultar para o Partido Comunista: devido ao fato que a extensa filiação foi realizada em função das práticas de férrea disciplina e obediência, e não em função da arte do acordo e da boas vontade. Além do mais, caso a desconcórdia se apoderase do partido e o paralisase, o caos e a fraqueza da sociedade russa se revelariam de maneira indescritível pois, como vimos, o poder soviético é somente uma crosta ocultando uma massa amorfa de seres humanos, entre os quais não se tolera nenhuma estrutura organizacional. A atual geração de Russos jamais conheceu liberdade de ação coletiva. Se, portanto, algo ocoresse que arrebentase a unidade e a eficácia do partido enquanto instrumento político, a rússia soviètica poderia tranformar-se, da noite para o dia, de uma das mais fortes sociedades em uma das mais fracas e deploráveis.

Assim sendo, o futuro do poder soviético pode muito bem não ser, em absoluto, tão seguro quanto a capacidade de enganar-se a sí próprio teria feito parecer aos homens do Kremlin. Que eles sejam capazes de conservar o poder, isto eles já demonstraram. Resta ser visto se eles podem tranferí-lo para outros, de forma fácil e tranqüila. Entrementes, as privações impostas por seu governo e as vicissitudes da vida internacional custaram um preço altíssimo à força e às esperanças do grande povo no qual reside seu poder, o povo russo. É curioso notar que o poder ideológico da autoridade soviética é, hoje, mais forte em áreas externas à fronteira da rússia, aréas que se encontram além do alcance do poder de sua polícia. Este fenômeno nos traz à mente a comparação usada por Thomas Mann em seu grande romance Buddenbrooks. Observando que as instituições humanas freqüentemente irradiam seu maior esplendor em momentos nos quais a decomposição interior encontra-se, na verdade, em seu estágio mais avançado, ele comparou a familia dos Buddenbrook, nos seus dias de maior glamour, a uma daquelas estrelas cuja luz resplandece mais intensamente neste mundo quando, de fato, já de há muito deixou de existir. Quem poderia dizer, assim, com convicção, que a potente luz que o Kremlin ainda irradia nos povos insatisfeitos do mundo ocidental não é o poderoso arrebol de uma constelação que está, na realidade, prestes a desaparecer? Isto não pode ser provado. Tampouco pode-se refutá-lo. Mas persiste a possibilidade de que o poder soviético, como o mundo capitalista na sua acepção, carregue consigo as sementes da sua própria decadência e que o brotar de tais sementes já se encontre em estado avançado.

IV
Claro está que os Estados Unidos não podem esperar gozar, em um futuro próximo, de intimidade política com o regime soviético. Os Estados Unidos têm que continuar a considerar a União Soviética como um rival, e não parceiro, na arena política. Têm que continuar a esperar que as políticas soviéticas reflitam, não amor abstrato pela paz ou pela estabilidade, não uma fé real na possibilidade de permanente coexistência feliz, mas sim pressão cautelosa e persistente em direção à fratura e ao enfraquecimento dos poderes rivais. Os contrapontos a isto são os seguintes fatos: a Rússia, ao contrário do mundo ocidental em geral, é de longe o partido mais fraco; as políticas soviéticas são altamente vergáveis; a sociedade soviética pode bem conter em seu seio deficiências que enfraquecerão, portanto, seu próprio potencial. Isto já garantiria, por si só, aos Estados Unidos, que embarcassem, com razoável confiança, em uma política de refreamento resoluto, com o intuito de confrontar os Russos com uma força contrária inalterável em todos os pontos nos quais os mesmos mostrem intenções de usurpar os interesses de um mundo estável e pacífico.

As possibilidades abertas para a política americana atualmente não limitam-se, entretanto, de forma alguma, a conservar as posições atuais no fronte e esperar que o melhor aconteça. É inteiramente possível para os Estados Unidos influenciar, através de suas ações, os acontecimentos internos, tanto dentro dos confins da Rússia como no seio do movimento comunista internacional, que determinam, em larga medida, a política russa. Não se trata simplesmente de uma questão de extensão modesta da atividade informacional que este governo possa conduzir na União Soviética e em outros lugares, ainda que isto seja importante também. Trata-se de uma questão de maior importância: de como os EUA transmitirão a impressão, entre os povos do mundo, de ser um país que sabe o que quer, um país que está lidando de forma bem sucedida com os problemas da sua vida doméstica e com as responsabilidades inerentes a um poder global; um páis que tem uma vitalidade espiritual que o capacita a manter-se firme, mesmo contra as correntes do tempo. Na medida em que tal impressão possa ser criada e mantida, os objetivos do comunismo russo revelar-se-ão estéreis e quixotescos, as esperanças e o entusiasmo dos defensores de Moscou desvanecerão e uma extenuação ainda maior será imposta às políticas externas do Kremlin, pois a idéia da decrepitude paralítica do mundo capitalista é a pedra fundamental da filosofia comunista. Até mesmo o malogro dos Estados Unidos em experimentar a depressão econômica precoce, que os corvos da Praça Vermelha previram com tamanha confiança complacente desde que cessaram as hostilidades, teria repercussões profundas por todo o mundo comunista.

Pela mesma razão, exibições de indecisão, desunidade e desagregação interna nos EUA têm um efeito hilariante em todo o movimento comunista. A cada evidência de tais tendências, uma sensação de esperança e excitação percore o mundo comunista; nota-se um novo garbo no caminhar do transeuntes de moscou; novos grupos de partidários internacionais ascedem àquilo que eles percebem como sendo o carro de som da política internacional e a pressão Russa se incrementa em toda a extensão dos negócios internacionais.

Seria exagero supor que o comportamento americano, por si só, pudesse exercer tal poder de vida ou morte sobre o movimento comunista e ocasionar, assim, a queda precoce do poder soviético na Rússia. Os Estados Unidos têm em suas mãos, porém, o poder de aumentar de forma considerável a extenuação sob a qual a política Soviética deve operar; o poder de impor ao Kremlin um grau muito maior de moderação e circunspecão do que aquele que ele teve que seguir em anos recentes e, desta forma, o poder de promover pressões que devem, no fim, encontrar sua válvula de escape seja na quebra ou seja no apodrecimento do poder soviético. Nenhum movimento místico nem messiânico –nem mesmo o Kremlin– pode, portanto, encarar a frustração por tempo indefinido sem se ajustar, no final, de uma forma ou de outra, à lógica deste estado de coisas.

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A decisão recairá, portanto, em grande media, no nosso próprio país. A questão das relações entre a União Soviética e os Estados Unidos é, em essência, um teste do valor total dos Estados Unidos enquanto nação dentre nações. Para evitar a destruição, os EUA precisam simplesmente estar à altura das sua melhores tradições e se provarem dignos da sua preservação enquanto grande nação.

Sem dúvida, nunca houve um teste de qualidade nacional mais justo do que este. À luz de tais circunstâncias, o observador cuidadoso das relações russo-americanas não encontrará razão alguma para reclamar do desafio que o Kremlin faz à sociedade americana. Ele experimentará, ao contrário, uma certa gratidão a uma providência que, ao proporcionar ao povo americano este desafio implacável, fez com que toda sua segurança enquanto nação se tornasse subordinada à sua capacidade de se recompor e de aceitar as responsabilidades de liderança moral e política que a história pretendeu, de modo claro, que os coubessem.

Notas do tradutor:
[1] "A respeito da propaganda dos Estados Unidos da Europa," Agosto de 1915. Edição Soviética Oficial das obras de Lenin.
[2] Aqui e em outros pontos deste artigo "scialismo” se refere ao Marxismo ou Leninismo-comunismo, não ao socialismo liberal na sua vertente da Segunda Internacional.


Tradução: Danilo Zimbres.

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